Fiz. Faço. Farei.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

# um - ERASMUS UAH

Aqui estou eu!
Depois de 9 horas de viagem de comboio, eis que chego finalmente a Madrid. Há muito que ambicionava partir numa aventura assim, mas agora isto é mesmo a sério. O dia chegou e sinto um misto de emoções.
Antes de vir, nas minhas muitas ideias-que-nos-surgem-antes-de-dormir, imaginei que chegava aqui radiante e feliz. A primeira coisa que ia fazer era tirar uma fotografia mesmo em frente à estação, com o enorme letreiro "MADRID - CHAMARTÍN" atrás de mim. Pfff! Tretas! Ainda estou meia adormecida e entorpecida da viagem, quero mais é descobrir a linha onde sai o comboio para o meu real destino: Alcalá de Henares. Estou sozinha, tenho uma mala enorme para transportar, mais um saco de desporto e mais uma mochila nas costas. Quero lá saber de fotografias.
Desço e subo as escadas, vou à bilheteira, observo os painéis, oiço os altifalantes, desço e subo as escadas, seguramente, mais umas quatro vezes. Bolas, mas onde raio apanho o comboio? Não percebo nada destas linhas, das vias, dos horários... Por fim descubro onde me devo meter e lá vou eu para mais meia hora de caminho.
Agora sim, cheguei ao destino. Esta será a minha cidade nos próximos dois meses. Há que apanhar um táxi até à casa que, supostamente, irei alugar. Ainda é incerto que tenho o quarto disponível porque, para minha pouca sorte, a senhoria resolveu avisar-me ontem à tarde que havia outra pessoa interessada e que iria dar prioridade a quem quisesse alugar o quarto mais tempo. Bo-ni-to! Avisa-me isto de véspera...
Sou conduzida por um taxista muito simpático e chego ao apartamento, que me parece muito simpático e razoável. Mas... não há pratos, não há talheres, não há tachos nem panelas. E, afinal de contas, o valor do quarto não é o que estava no anúncio (e que a senhoria me havia dito por e-mail), mas antes mais 50€ que o suposto. "Ok, mas eu gostaria de alugar", afirmo porque, a bem dizer, não tinha em vista mais opções. "Ah, espero a outra pessoa pelo início da tarde e, nessa altura, decido".
Saí porta fora, a entrar em desânimo porque sabia que a probabilidade de alguém ficar mais tempo do que eu era gigante. Comecei a procurar, a ligar, a desesperar. E agora, que faço?! Estou aqui sozinha, não tenho casa, onde vou ficar a dormir esta noite, porque é que me meti nisto?! Foda-se.
Alugo um quarto num hostal. Boa, uma promoção de última hora no booking.com salva-me o dia. Aí vou novamente, desta vez de autocarro urbano, até ao centro da cidade. Encontro o hostal, instalo as coisas e continuo a minha missão de encontrar um quarto para alugar pois não queria dormir mais que uma noite no hostal. Cruzo-me com uma alemã, também estudante de ERASMUS, muito simpática e doce, que me convida para tomarmos o pequeno almoço juntas, no dia seguinte. Aceito mas nem aquela caridade me deixou tranquila...
Faço mais chamadas, muitas negas pelo caminho e algumas pessoas que só podem mostrar a casa ao fim do dia. A esperança está lá mas, ao mesmo tempo, estou desolada. De tal modo que não consigo ir a lado nenhum sem desatar a chorar... com quem quer que fale, só me apetece descarregar a raiva e a tristeza em que a outra mulher me deixou. Nunca pensei começar esta história assim.
Entretanto vou ao posto de turismo mas vem a tarde e começa tudo a fechar por causa de la siesta. Nada para fazer, nada para ver, mais vale regressar ao meu quarto e logo se vê. Quando entardece vou visitar a casa de uma chinesa. Um quarto pequeno, com varanda. Uma cozinha pequena mas completa e uma casa de banho pequena também. A sala grande e mais 2 quartos por ocupar. Um preço razoável e numa zona muito central, perto da estação dos comboios, com todo o tipo de comércio ao longo da rua, um supermercado mesmo abaixo e ainda perto das paragens dos urbanos. Graças ao Senhor!!! É aqui que fico, amanhã mudo-me.
Finalmente respiro de alívio e começo a ficar mais contente. De repente, deixo de me sentir sozinha, como se ter uma casa fosse como ter a melhor companhia. E, para ser sincera, ter uma casa, um sítio onde dormir, mesmo que passemos o tempo sozinhos, é tão bom como estar com todos os nossos amigos. Pequenos luxos que só valorizamos quando nos vemos sem eles.

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